A cimeira da NATO que se inicia terça-feira em Ancara será oficialmente dedicada aos gastos militares. Mas por trás dos compromissos orçamentais, surge uma questão muito mais fundamental: podem os europeus ainda contar com os Estados Unidos para garantir a sua segurança?
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Imagine que você tenha seguro contra incêndio há 75 anos. Todos os anos você paga sua taxa de adesão. Você nunca precisou de indenização, mas um dia sua seguradora lhe diz: «De agora em diante, quero que você mesmo proteja mais sua casa. Instale alarmes, compre extintores de incêndio, reforce as portas. E se ocorrer um incêndio, posso estar lá… mas você terá que fazer muito mais do que antes.» Isto não é uma rescisão do contrato. Mas não é mais o mesmo contrato.
Desde 1949, os europeus beneficiam de uma garantia colectiva consagrada no Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte: um ataque contra um Estado-Membro é considerado um ataque contra toda a Aliança. Esta cláusula só foi activada uma vez, após os ataques de 11 de Setembro de 2001 aos Estados Unidos. Hoje, este contrato não é posto em causa. No papel, nada muda. Os Estados Unidos continuam a ser o pilar da NATO, mantêm o comando militar supremo na Europa e ainda asseguram a protecção do seu guarda-chuva nuclear.
Mas, na verdade, a relação está a evoluir: Washington está a reduzir gradualmente a sua presença militar no continente europeu, transferindo mais responsabilidades para os seus aliados e pedindo-lhes que participem cada vez mais na sua própria defesa. Por outras palavras, os Estados Unidos não estão a pôr termo ao seu compromisso, mas esperam que os próprios europeus forneçam uma parte maior da sua segurança.
O verdadeiro desafio poderá não ser a substituição dos meios militares americanos, uma perspectiva que exigirá anos de esforço. Acima de tudo, é para preservar a credibilidade da Aliança. Porque uma aliança não se baseia apenas em capacidades militares; baseia-se também na convicção de que todos irão imediatamente ajudar os outros em caso de ataque. É precisamente esta certeza que devemos preservar hoje face a Moscovo. O objectivo é convencer Vladimir Putin de que os europeus defenderão cada centímetro do seu território, inclusive se os Estados Unidos estiverem menos presentes.
A dissuasão baseia-se, de facto, tanto nas capacidades militares como na percepção que o adversário tem delas. No entanto, as declarações de Donald Trump alimentam questões. O presidente americano julgou recentemente «ridículo» que os Estados Unidos continuam a manter uma relação que considera «unilateral» com a OTAN. Ainda irritado com a reacção dos aliados europeus à guerra no Irão, desencadeada por Israel e pelos Estados Unidos, critica-os por não terem apoiado Washington.
Portanto, a cimeira de Ancara não terá apenas de responder a uma questão de orçamento ou de rearmamento. Terá também de dar uma resposta política a uma questão essencial: a garantia americana ainda inspira o mesmo grau de confiança? O tratado ainda está em vigor. Mas, pela primeira vez em 75 anos, os europeus interrogam-se sobre como seria interpretado no dia em que realmente tivesse de ser aplicado.